Em Loveland, todos têm um Amor. Alguns são grandes, outros são azuis. Alguns são pequenos, outros feitos de luz. Os Amores se cumprimentam, e alguns até se conhecem. Às vezes, os Amores tropeçam e caem. São poucos os que ficam para trás, apesar de logo se recuperarem e voltarem para seus donos. Um Amor nunca fica muito tempo longe, eles não gostam de ficar. Afinal, foram escolhidos, e vivem para amar. Você deve estar se perguntando dos casos dos Amores se perderem. Sim sim, eles estão por aí. Mas os Amores, mesmo quando perdidos, sempre estão por perto. Para quem tem um Amor, ele sempre volta a aparecer.

Em Loveland, todos têm um amor. E todos carregam seus amores por onde andam, voam, nadam ou pedalam. Todos, menos Leo.

Leo está cansado. Ele está em uma situação que, se fosse uma canção, seria a parte desfigurada de Crimson and Clover. Enquanto chove. Claro, há de chover neste momento. É propício, combina com a falta de um Amor. Felizmente para Leo, a música termina da melhor maneira possível. Mas até lá, vamos voltar à parte difícil.

Há muito tempo que Leo vê todos ao seu redor encontrando um Amor. Ele reconhece os já mencionados aqui nesta história. Sabe dos formatos, cores e manias de vários deles. Consegue diferenciá-los, fazê-los rir, e quando tem a chance, até canta para eles (para, apesar de nunca ter admitido, tentar roubar ao menos um, ao menos por um tempinho). Mas os Amores, ah os Amores… Apesar de gostarem da cantoria, quando o show acaba, sorriem e voltam a prestar atenção em seus donos. Nada que Leo fazia parecia ser o suficiente para conseguir um Amor. Mas é aqui que a canção de Leo começa a se endireitar.

As pessoas que têm um Amor, ah, elas são diferentes. São generosas, e muito pacientes. Olhar Leo ali, todos os dias, sem um Amor para chamar de seu, cortou seus corações. Elas então se juntaram, se amontoaram e observaram, para pensar em soluções.

Tudo foi feito para ajudar Leo a encontrar seu Amor. Ele ganhou muitos abraços, doces e presentes. Um até tentou doar seu Amor, outro, tentou cortá-lo em pedacinhos, e mais um, tentou pintá-lo com a cor favorita de Leo. Nada funcionou. Os Amores não se desprendiam, soltavam ou descolavam de seus donos. Eles pareciam muito grandes, muito pequenos, muito rechonchudos, muito magrinhos, muito misteriosos ou muito coloridos.

As pessoas tentaram, criaram e testaram todas as ideias que puderam imaginar. Ideias que poderiam ser maneiras de ajudar. O dia passou e as opções se esgotaram. Com alguns abraços e muitos olhares simpáticos, Leo ficou como já estava: sem entender nada.

Leo caminhou cabisbaixo por Loveland, e de tão baixo que estava seu olhar, acabou sujando sua camiseta com uma bola de sorvete. À sua frente, uma menininha segurava a casquinha vazia, derrubada por acidente. O culpado foi seu Amor, gigante e desengonçado, que a empurrou sem querer para cima de Leo.

A máquina de sorvetes ficava logo atrás dos três. Infelizmente o Amor da pequena menina não poderia pegar outro sorvete para ela. Veja bem, os Amores estão sempre com os cidadãos de Loveland, mas quem escreve cartas, escova os dentes, toca violões e pega sorvetes, são as pessoas.

Então finalmente, a canção se endireitou. Aqui está o trecho tão esperado, o tal do desfecho. Leo caminhou três passos até a máquina de sorvetes, esperou alguns segundos para fazer uma volta cor de rosa perfeita na casquinha novinha em folha. Para não manchar ou esfarelar, Leo a enrolou em um guardanapo. E para finalizar, adicionou uma colherzinha roxa no topo.

Leo deu meia volta e repetiu os três passos para voltar onde estava. Ao lado de seu Amor, a menina observava. Assim que entregou o sorvete de morango e deu um sorriso, Leo notou algo diferente. Ele não havia ajudado a menina por interesse.

Finalmente se fez claro o sentido, o mistério, a revelação. Para ter um Amor, é preciso agir com o coração. De dentro de Leo, pulou um Amor. Rosa como um sorvete, com cachos iguais ao de seu dono. A menina sorriu e os dois começaram a celebrar. Leo entendeu que não é preciso receber, mas dar. Isso é amar.

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Anna Padilha gosta tanto de boas histórias de aventura que resolveu transformar sua vida em uma, e mesmo estando apenas no prólogo, já sabe que irá encontrar um grande enredo pela frente. Pode até ser uma obra um tanto fantasiosa, mas acreditar que é possível é o passo principal para torná-la real. E cá entre nós, esse é o melhor tipo de narrativa. Enquanto desenvolve o percurso, escreve algumas críticas, algumas resenhas, algumas frases, alguns textos e alguns livros.