Era uma vez um destemido boneco de neve. Ele vive muito, muito longe de qualquer ser humano, na parte mais baixa da Terra. Apesar que talvez seja a parte mais alta, Flip não saberia dizer. Ele é feito pela neve mais gelada, e seu nariz, uma grande e pontuda estaca de gelo, assusta qualquer animal que ouse chegar perto.

Na verdade, essa é a história que Flip queria ter. Sua verdadeira história é um pouco diferente. Ele não vive tão distante assim, você pode encontrá-lo no Shopping Mundi, no centro da cidade. Seu nariz é uma cenoura de plástico que crianças disputam para tentar arrancar. Sua pele na verdade é fria sim, mas pelo ar condicionado do shopping. Porém em uma coisa Flip estava certo quando pensou em como seria sua história. Seu coração é gelado como a neve. Afinal, Flip odeia o Natal.

Mas ainda assim ali está ele. Ano após ano, sorrindo todos os dias em um cenário natalino com neve de mentira, e resmungando durante a noite, quando finalmente pode se mexer, se alongar e, manualmente, alterar seu sorriso para uma cara emburrada.

– É sério – diz ele assim que cai a noite -, não dá mais! Pra mim já chega. Dessa vez é pra valer: eu tô indo embora dessa porcaria de shopping, dessa neve de mentira e dessas luzes que não param de piscar. POR QUE ELAS NÃO PARAM DE PISCAR? Custa deixar a luz parada, como uma lâmpada normal?

– Mas é isso que torna a lâmpada de Natal algo… de Natal, Flip – responde Flop, outro boneco de neve, e também colega de banda de Flip. Sim, Flip é músico. Ou quase isso.

Flip está inserido em um pequeno set na decoração que fica ao redor da árvore principal do shopping, aquela enorme, cheia de adereços. Ele e outros quatro bonecos de neve feitos, citando Flip, de “neve de mentira”, fazem parte de uma adorável banda natalina. Flap fica na ponta, com um pandeiro. Flep e Flup estão sempre no centro, com um triângulo e um violino, respectivamente. Na outra ponta, Flop completa o som com um trompete. Já Flip fica posicionado em frente à banda, com os braços esticados completamente para cima. Não como se fosse o maestro do grupo, afinal ele está de costas para os colegas. É mais como se estivesse sozinho em uma ilha brilhante, com uma música repetitiva, pedindo socorro.

Há alguns natais, os membros tiveram uma grande discussão de três noites seguidas sobre um possível reposicionamento de Flip. A resposta não foi nada positiva. Flop até foi ameaçado de virar adereço da grande árvore de natal, mas não vou entrar em detalhes desagradáveis. Flip portanto continuou sendo Flip: de costas para a banda, estampando um sorriso estático para as crianças (até mesmo aquelas que tentam arrancar seu nariz), enquanto deseja secretamente pendurá-las na árvore.

– Deixa ele, Flop – responde Flup, enquanto lustra seu violino. – Quantas vezes Flip já disse que iria fugir?

Foram muitas. Mas uma noite específica acabou de vez com seus planos. Flip tinha acabado de abaixar os braços e o sorriso e resolveu dar uma volta no shopping. O problema é que ele não contava com a saída da sessão de pré-estreia do cinema, na escada rolante mais distante da grande árvore e da banda de Flip. Era justamente lá que ele estava quando um garotinho de quatro anos saiu do banheiro tentando correr de seu pai. Ele acabou esbarrando em Flip, e bem, um boneco de neve bem maior que você, emburrado, no escuro do shopping, não está exatamente na lista de cenas aceitas como natalinas por uma criança. Flip se fingiu de estático como faz todos os dias para que o pai do menino pudesse pegá-lo e levar o choro para longe. Desde então Flip entendeu que se saísse do shopping, essa seria a reação de quem o encontrasse. Mas além disso, Flip notou que as pessoas, assim como ele, também não gostam do Natal.

– Ninguém vem aqui para ver a árvore ou escutar a banda – disse ele, assim que voltou para seu lugar. – Já perceberam? As pessoas passam por aqui para chegar ali! – ele apontou para uma grande e glamurosa poltrona vermelha posicionada em uma das extremidades do cenário.

– O Papai Noel! – exclama Flep enquanto brinca com os cachorrinhos da decoração, que tentam tirar o triângulo de sua mão.

– Nós somos visitados porque as pessoas querem chegar nele para pedir presentes – um tom de tristeza atingiu Flip em meio ao aborrecimento. – As pessoas gostam de presentes, não do Natal.

Os colegas de Flip ainda tentaram argumentar. Flap tentou convencê-lo de que presentes fazem parte do Natal, mas Flip não conseguia entender como que algo comprado em uma loja teria mais valor que um boneco de neve, por mais que seja de mentira. A dúvida rondou a cabeça de Flip desde então, e só ajudou a deixá-lo ainda mais rabugento.

Após deixar Flop falando sozinho sobre as luzes que piscam, Flip passou o restante de seu tempo livre andando no trenzinho natalino que passa por dentro da grande árvore. Ao voltar para a sua posição estática às 08:59 da manhã, ele não pôde deixar de pensar que, se não serve para um presente, não sabe ao certo por que está ali. Quando seu sorriso se ergueu junto com seus braços mais uma vez, ele nem desconfiava que estava prestes a conhecer o verdadeiro significado do Natal.

As enormes portas de vidro deslizaram para os lados e deram espaço para que as únicas duas pessoas que estavam esperando do lado de fora pudessem entrar. O sorriso de Flip até se esticou um pouco. “Poucas pessoas” ele pensa, “continue assim o dia todo, continue assim o dia todo…”. Às vezes dá certo. Nos dias de semana, para a sua alegria, o movimento fica baixo. Este é um desses dias. No fim da tarde, os cálculos de Flip indicam que o total de zero crianças tentaram puxar seu nariz hoje, e ele fez questão de pensar nisso para se sentir alegre. Quando ele começa a se acostumar a cantar mentalmente uma das quatro versões de Jingle Bell disponíveis na playlist da banda, ele escuta, pela primeira vez no dia, o horror, a falta de paz e o desespero presente em gritinhos, risinhos e chorinhos de crianças. “Não. Não, não, não, não” ele pensa. “Não pode ser. Já está escuro lá fora”. Então Flip se lembrou que durante a semana as crianças não ficam em casa, elas vão para a escola. E no Natal, as escolas fazem passeios. “Passeios. Natalinos.”.

Neste momento, se você olhar bem de perto, é possível ver que o sorriso de Flip é uma expressão desesperada. As crianças chegam, aos pulos, gritos e muitas, mas muitas mãozinhas que tentam puxar seu nariz. “Qual é”, é como se o sorriso falasse, “Flop tem um trompete. Um TROMPETE. E vocês querem uma cenoura de plástico.”. Mas em sua mente, Flop também torcia para que o trompete permanecesse intacto.

Depois de retirar cada criança do cenário para fazer uma fila organizada, as duas professoras conseguiram controlar a “manada de pequenos seres”, como pensou Flip. Na medida em que os grupos atravessavam a grande árvore com o trenzinho natalino, os gritinhos voltavam, dessa vez bem mais animados, e com um ar de admiração. Quando último vagão cheio de crianças passou pela árvore, a cabeça de Flip voltou a murmurar. “Papai Noel!”, ele balbucia em sua mente de maneira irônica. “Eu quero uma boneca para completar minha coleção de cinco mil e quinhentas que eu já tenho. Aliás, por que o senhor não é uma boneca? Já que o Natal é feito de brinquedos”, ele continua, com o sorriso cada vez mais apertado.

O que Flip não esperava era que, enquanto as crianças do passeio escolar se admiravam com os “ho ho ho’s” do Papai Noel, alguém estaria ali observando seu sorriso desagradável. Como em um impulso para fazê-lo se sentir melhor, Flip foi abraçado.

Flip moveu os olhos para baixo e tudo o que conseguiu enxergar foi uma pontinha vermelha e encaracolada. Ele queria se mexer e sacudir os braços para que o que quer que estivesse preso em seu corpo pudesse se soltar. Flip estava desesperado, e pior, estava ficando quentinho com aquele abraço.

– Você está bem senhor boneco de neve? – o pontinho vermelho perguntou.

– Não! – Flip finalmente soltou o sorriso e respondeu, talvez um pouco alto demais.

As mãozinhas soltaram Flip e se afastaram. O pontinho vermelho é na verdade uma menininha, com os cabelos ruivos e encaracolados presos dos dois lados, com os cachos rebeldes espalhados como podem. Ela arruma os óculos em seu rosto espantado, por cima das sardinhas e dos olhos verdes. Flip nota o que fez. Ele falou com alguém, com uma criança! A banda de bonecos de neve para de tocar por um segundo, chocados com o que acabou de acontecer. Mas Flap é rápido em voltar no ritmo e repetir a palavra de Flip, “não, não, não, não”, em meio à música, como se fizesse parte do arranjo desde o princípio. “Então é Natal! (não, não, não, não, não) E Ano Novo também! (não, não, não, não, não)” os outros entenderam e entoaram a versão negativa da canção.

Mas Flip ficou parado, ainda em choque, ainda com os braços esticados para cima, desejando ser puxado por alguma força que o tirasse dessa situação desesperadora. Não porque falou com uma criança, mas porque ela não saiu correndo. Na realidade, ela continuou ali, parada, observando Flip e a nova versão de Então é Natal (com essa, agora são cinco), até que a professora viesse buscá-la após ouvir o grito de Flip.

– Milena! – disse a professora. – Você deve ficar com o restante da turma!

– Ele falou comigo – ela disse, já de mãos dadas com a professora indo em direção ao Papai Noel. – O boneco de neve falou comigo.

– Viu só que legal! – a professora respondeu sem prestar muita atenção.

Flip pôde sentir os olhares de seus colegas de banda em suas costas durante o restante da noite. Ele sabia que, assim que as portas de vidro fossem fechadas, Flop iria começar um discurso sobre como não é permitido falar com os visitantes, e Flap iria dizer que foi algo muito, muito irresponsável – assim como aconteceu com o incidente do menino na porta do banheiro.

As crianças foram embora e Flip não conseguiu dar uma última olhada na menininha de cachinhos ruivos que o abraçou. Talvez tenha sido o abraço quentinho, ou a preferência da menina em passar um tempo com um boneco de neve e não com o Papai Noel, mas Flip pensou, refletiu, e se arrependeu quando notou que a única palavra que disse para a pequenina foi um grande e entoado “não!”.

As portas se fecharam, o trenzinho parou, a música cessou, e assim que os braços de Flip se abaixaram (junto com seu sorriso), a discussão começou.

– Inacreditável! – Flip estava certo. Foi Flop quem começou – Agora você passou dos limites, Flip.

– Falar? E ainda por cima com uma criança? – Flep segura seu triângulo com as duas mãos trêmulas, com medo só de pensar em se colocar no lugar de Flip.

– O Papai Noel fala com as crianças. Nós só tocamos a música – disse Flap. – Sempre foi assim, Flip.

E Flip sabia. Murmurou um pedido de desculpas e saiu, dessa vez sem discutir. O frio boneco de neve só conseguia pensar em como seu coração ficou quentinho quando a garotinha perguntou se ele estava bem. E ela nem sequer pediu um presente! Flip pensou e pensou, e resolveu dar uma volta no trenzinho da grande árvore para pensar mais um pouco. Assim que passou pelos dois ursos polares e pelos cachorrinhos, Flip fechou os olhos no escuro do interior da árvore.

“Você está bem?” ele escuta em sua cabeça. Por que nunca tentou falar com uma criança antes? Poderia simplesmente pedir para que elas não puxassem seu nariz… Ah sim, o garotinho do banheiro. Elas iriam chorar. Mas a menina dos cachinhos ruivos não chorou. “Senhor boneco de neve” ele escuta mais uma vez, e então um “Oi?”. Essa parte não estava nas falas da menina. O coração de Flip deu um salto e ele abriu o olho esquerdo. Nada.

– Senhor boneco de neve? – Flip decidiu que abrir os dois olhos seria a melhor opção.

Ao seu lado direito, em meio à família de pinguins dançantes, os olhinhos verdes da menina brilham de curiosidade. Flip se assusta, perde o equilíbrio e cai sentado no chão ao lado de alguns huskys.

– O que? – Flip está em choque, e com medo da menina achar que ele não sabe formar frases completas, então adicionou: – O que você está fazendo aqui? O shopping já fechou.

Flip sabe que não deveria falar com ela, mas ela está ali, sozinha, à noite. Nenhuma criança fica sozinha no shopping à noite. Sem contar que Papai Noel já foi embora uma hora dessas. Não tem protocolo para seguir, então ele pode falar com ela… certo?

– Eu sabia que você tinha falado comigo! – ela levanta e coloca as duas mãos na cintura, como uma mini super-heroína. – Eu disse pra minha professora!

– Eu ouvi – Flip responde, também se levantando, tão curioso quanto ela. – Ela achou legal.

– Não, ela nem escutou – disse a menina. – Normalmente isso acontece, as pessoas grandes não prestam muita atenção.

– É que elas já são grandes – responde Flip após pensar um pouco. – Aí acham que já sabem de tudo.

– É verdade – ela aperta um pouco mais os dois elásticos que prendem seu cabelo dividido ao meio. – Os adultos nem falam com o Papai Noel!

E lá está ele mais uma vez no centro das atenções. Papai Noel e seus presentes.

– Como é seu nome? – ela resolve ignorar a cara emburrada do boneco de neve.

– Flip – ele responde, um pouco cabisbaixo. – O seu é Milena? Sua professora disse.

– Sim! – ela responde com um entusiasmo que logo se vai, afinal Flip ainda olha para baixo. – Por que está triste, Flip?

– O Natal – ele diz sem pensar.

– Você não foi um bom garoto esse ano? – ela pergunta.

Flip pensou em todas as vezes que deixou seus companheiros de banda sozinhos, desejou pendurar as crianças que tentam arrancar seu nariz na grande árvore, fez imitações do Papai Noel e escondeu o triângulo de Flep ali mesmo, no meio dos pinguins que agora já acreditam que Milena faz parte de sua família. Flip não foi um bom garoto, e ele sabe disso.

– Não quero ser um bom garoto para ganhar presentes – ele diz. – Todos só se preocupam com os presentes. Eu mesmo posso comprar presentes se quiser.

A pequena Milena o observa com cuidado, não para escolher as palavras cuidadosamente, mas para tentar entender como aquele boneco de neve não conhece o verdadeiro significado do Natal.

– Mas o Natal não está nos presentes – ela responde.

O trenzinho volta para dentro da árvore e Milena achou uma boa ideia entrar. Flip faz o mesmo. Agora ele precisa saber o que ela quis dizer.

– Como assim? – ele pergunta enquanto os dois contornam a outra extremidade da árvore.

– O Natal não está nos presentes! – ela repete devagar, como se tentasse explicar algo para, bem, um boneco de neve.

Alguns segundos mais tarde, o trenzinho chega em sua parada final: a espetacular cadeira vermelha do Papai Noel. Milena soltou um “Uaau!”, e apesar de não assumir, Flip também ficou impressionado, já que não costuma visitar essa parte do cenário de Natal.

– Ele não está aqui – Flip diz. – Volta pela manhã.

– Eu sei – Milena responde. – Mas o Natal não depende do Papai Noel.

Flip estava começando a ficar confuso. Por que então que todos vão até o bom velhinho para pedir presentes? Ele fez a pergunta à Milena.

– As pessoas querem dar amor, mas não dá pra comprar amor. Então elas compram presentes, para dar com amor – Milena diz.

– Então… o presente não vale se não tiver amor?

– Isso! – Milena ergue os braços, como a posição original de Flip. – O que vale não é o presente, mas o significado que você coloca nele.

– Então o que importa é o valor – Flip repete.

– Você está repetindo tudo o que eu falo – Milena coloca a mão na testa e faz uma careta. Ela sai correndo e pula na cadeira do Papai Noel. – Flip, o que você quer de Natal? Ho ho ho – ela pergunta, tentando imitar o Papai Noel.

– Eu… eu não sei – Flip nunca havia pensado em presentes dessa forma. A verdade é que Flip nunca tinha imaginado que cada presente carrega uma porção única de amor.

Milena notou sua confusão e saltou da cadeira do Papai Noel. Perto da grande árvore de Natal, ela realmente parecia da família de pinguins de tão pequena. Mesmo assim, não hesitou em esticar seu braço ao máximo possível, até encontrar uma cartola preta e muito elegante como um dos enfeites. Ela assoprou para tirar a neve de mentira e a levou até Flip.

– Aqui está, o seu presente de Natal – Milena olhou para Flip até ele se abaixar para ela colocar o chapéu em sua cabeça.

– O amor é um chapéu? – Flip pergunta, curioso, realmente buscando entender o que acabou de descobrir.

– Não – Milena solta uma gargalhada e esconde o rosto nas pequenas mãozinhas. – O amor é invisível, Flip. Mas quando você olhar para o chapéu, vai se lembrar dele.

Dessa vez, foi Flip quem abraçou Milena. E então ele sorriu. Um riso genuíno e feliz, com as pontas para cima de maneira natural. Ao sentir o chapéu em sua cabeça e ver aquela menininha que não pensou duas vezes antes de abraçá-lo quando achou que ele não estava bem, Flip entendeu que o Papai Noel está dentro de todos. Milena pode ser o Papai Noel, e um abraço pode ser um presente, se dado com amor.

No restante da noite, Flip e Milena coletaram enfeites da grande árvore para presentear os outros bonecos de neve, os cachorrinhos, os pinguins e os huskys. Até mesmo o Papai Noel encontrou um presente em sua cadeira, na manhã seguinte. Flip abraçou cada um de seus amigos, e seu gesto de amor inspirou outros e mais outros.

Um pouco depois dos bonecos de neve se acostumarem com a ideia de falar com Milena – agora, sem discutirem – os pais dela vieram buscá-la. Correndo nervosos e com a expressão mais desesperada que a de Flip mais cedo. Mas assim que a encontraram (enquanto os bonecos de neve congelaram para passarem despercebidos), a abraçaram, como se nada mais importasse. Naquela noite, Flip entendeu o verdadeiro significado do Natal, e decidiu que gosta de sua história de boneco de neve, mesmo com a neve de mentira, nariz de plástico e agora um belo chapéu. Afinal foi assim que ele descobriu que o amor é quentinho como um abraço.