A indústria musical através de Black Mirror: os fãs tão errados quanto os empresários

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No episódio de Black Mirror que leva Miley Cyrus para a Netflix, Rachel, Jack e Ashley Too, a superstar Ashley não está mais feliz com seu material, e é explorada em vários sentidos para que continue gerando dinheiro. Miley colaborou para o desenvolvimento do roteiro compartilhando experiências pessoais. Em uma entrevista ao jornal The Guardian, ela diz que “o episódio retrata a exploração dos artistas e que os números podem eclipsar a criatividade”. Mas tal exploração e expectativa não vem de apenas um lado, como é visto em Rachel, Jack e Ashley Too.

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A crítica do episódio não deve ser atribuída a apenas parte da indústria, aos empresários e gravadoras que controlam os artistas e sua criatividade. O que Rachel, Jack e Ashley Too proporciona é uma reflexão quanto aos fãs, e os verdadeiros motivos para que a admiração por uma pessoa famosa seja nutrida. Na série, uma boneca que representa Ashley é sucesso de vendas. Enquanto os fãs se contentam com um objeto, a verdadeira Ashley continua sem espaço para crescer e vender as músicas que realmente deseja fazer. É a síndrome das marionetes da indústria musical, de maneira literal.

Um exemplo literal pode ser encontrado em Fifth Harmony. Hoje, após a separação do grupo, seus fãs ainda culpam Simon Cowell por tudo o que a girlband passou – sem músicas autorais, sem liberdade alguma. Cowell, assim como a gravadora, certamente têm parcela da culpa. Mas reclamar desta indústria e continuar sendo fã de artistas controlados apenas colabora para que mais artistas controlados sejam criados, afinal é o que gera dinheiro.

Se você sabe que seu artista favorito é controlado, não escreve ou produz canção alguma e não escolhe nem as roupas que usa, por que você é fã dele? Ou melhor, quais são os verdadeiros motivos para que um fã seja cultivado? Talento e trabalho duro ou uma imagem pronta, milimetricamente criada por uma empresa? Se você escolhe ser fã da segunda opção, não tem direito de reclamar que contratos abusivos ainda existam, uma vez que você mesmo colabora para que eles estejam por aí.

É claro que artistas não são feitos apenas de música e arte. Na prática, o talento nato não é tão interessante quanto o trabalho duro. As boas gravadoras criam ótimas estratégias de marketing para que seus artistas se destaquem, e isso inclui uma identidade visual forte. Mas o principal sempre está na mensagem dos artistas. As pessoas não compram produtos, elas compram causas. Quando a mensagem criada para representar tal artista não é coerente com o que ele realmente pensa ou quer dizer, aí está o problema.

Não se espera que uma criança tenha um pensamento crítico em relação a indústria musical para escolher de quem será fã. Mas um jovem adulto que consome (ou não) os mesmos artistas de sua infância tem este poder de escolha e crítica. Afinal atos de coragem como o de Miley, que se desvencilhou de Hannah Montana, ou Ashley, que deixou a peruca rosa para trás para cantar rock, não farão a diferença se os discursos reais dos artistas forem ignorados enquanto os fãs preferem comprar produtos de gravadoras.