O que Coisa Mais Linda ensina sobre música e empoderamento feminino

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A abertura de Coisa Mais Linda com Garota de Ipanema, tocada na língua inglesa como trilha sonora de imagens das personagens femininas, já mostra o objetivo da série. A criação da Bossa Nova e o retrato de uma sociedade majoritariamente preconceituosa e machista criam um contexto histórico especial para todos aqueles que gostariam de conhecer o Brasil em 1959.

A história de Maria Luiza, uma mulher abandonada pelo marido que decide encontrar seu propósito ao abrir um clube de música no Rio de Janeiro, é contada enquanto elementos históricos são esboçados na trama. Maria Luiza tenta empreender em um cenário em que isso seria basicamente impossível para qualquer mulher – que não podiam nem ao menos assinar um contrato sem um homem responsável por elas.

Empoderamento Feminino

A construção de um propósito e de objetivos pessoais era visto como algo tão inatingível para as mulheres que um simples emprego já seria uma vitória, por isso a aceitação de salários inferiores aos homens para exercer a mesma função era algo comum, afinal era necessário para que as mulheres pudessem ao menos trabalhar. A questão é por quê isso ainda existe na sociedade contemporânea, como um valor a ser mantido até que alguém diga que não está mais correto.

Porém a função da mulher na sociedade era diferente, dependendo da mulher. As mulheres brancas deveriam ficar em casa e cuidar dos filhos, assim como Lígia, que apesar do talento para o canto fingia ter decidido superar os sonhos para agradar o marido – algo visto como amadurecer e encarar as responsabilidades. Por outro lado, as mulheres negras, como Adélia (sócia de Maria Luiza no clube), não eram vistas como mulheres, mas sim como empregadas, que deveriam dedicar suas vidas aos filhos de suas patroas.

Ou seja, quando o emprego era conquistado, não significava uma total liberdade de ser a mulher que desejava ser. Em Coisa Mais Linda, Thereza trabalha em uma revista feminina na qual é a única mulher, em meio à muitos homens que julgam saber o que as mulheres querem, mesmo sem assumir que estão ditando o que elas deveriam querer através de seus textos. Em 2019 este é um passo já ultrapassado, felizmente. Afinal com a internet ninguém precisa depender de um grande veículo para expressar pensamentos e opiniões. A era digital funciona, e ajuda.

Música

Enquanto Coisa Mais Linda conta suas várias histórias, a trilha sonora também se encaixa no contexto. A criação da Bossa Nova aparece com Chico, um músico que vive o estereótipo de um artista preocupado apenas com sua arte, sem buscar a fama que um grande contrato poderia proporcionar. É interessante pensar como Chico teria este mesmo problema na indústria musical de 2019. Aqueles que ouviam a Bossa Nova não sabiam ao certo do que se tratava, e os privilegiados que continham coleções de discos já enxergavam referências estrangeiras no ‘jazz com samba’, ou ‘jazz lento’, no novo ritmo brasileiro.

Porém a Bossa Nova é apresentada na série claramente direcionada à elite carioca, que ouvia o ritmo em festas e barcos, com os melhores cigarros e bebidas. Enquanto isso, o samba estava no topo dos morros, em rodas criadas por pessoas vivendo quase que invisíveis na sociedade por puro preconceito. Na série, o samba representa uma cultura única do início das favelas, um momento feliz criado por seus moradores e compartilhado por eles.

Hoje, o samba é aceito com sorrisos, e uma pitada de orgulho quando há algum estrangeiro por perto, já que é o ritmo brasileiro mais famoso fora do Brasil. Mas o som das favelas ainda tenta ser abaixado pela elite brasileira, que só escuta artistas americanos. Se Coisa Mais Linda fosse habitada em 2019, o funk seria o samba, e não importa o papel social e cultural que ele crie para os moradores das comunidades, ele seria pintado como algo que não deveria descer o morro.

Em Coisa Mais Linda a mistura de ritmos é vista como algo ultraje e desapropriado, assim como a mistura de classes. A série apresenta os ritmos em um cenário de segregação musical, que reflete na sociedade. O clube de Maria Luiza e Adélia, assim como as personagens, quebra padrões por querer misturar todos os tipos de música e pessoas (e bebidas). É claro que a realidade da série é enfeitada, e bem menos dura do que a história brasileira – afinal assim como qualquer produção, foi criada para entreter.

Porém a mistura da ficção é algo feito por alguns artistas no Brasil, que recentemente começaram a notar que o grandes nomes não se definem a apenas um ritmo, mas sim à música. Mas, principalmente, feito pelo público brasileiro, que entende que a mistura faz parte do Brasil, e que o funk é cultura sim, e brasileira – para todos os brasileiros.

  • Analuz Figueira

    Amei essa série desde o primeiro segundo♡♡