Paul McCartney é a lenda sem medo de não parecer um rockstar

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Quando tocadas ao vivo, as grandes composições de Paul McCartney representam algo que consegue ir além de sua função de mudar o rumo da música e moldar toda uma indústria. Assistir a um show de Paul McCartney não é o mesmo que ouvir a genialidade óbvia que os livros e documentários mostram há anos. É como estar em um filme em que o protagonista é você, enquanto a trilha sonora natural de sua trajetória toca ao fundo.

Paul McCartney mostra o verdadeiro poder da música quando faz com que aqueles que presenciaram o sucesso estrondoso dos Beatles cantem e dancem ao lado de muitos que ainda nem eram nascidos quando a banda chegou ao fim. Uma verdadeira beatlemania é criada assim que A Hard Day’s Night começa a tocar, iniciando a The Freshen Up Tour.

Mas apesar da encantadora nostalgia criada por I’ve Got a Feeling, até a tão esperada Hey Jude – que criou um daqueles momentos cinematográficos de êxtase para todos os protagonistas da plateia, McCartney não aparece como um herói do rock, mas como uma lenda que tem o poder de criar relacionamentos genuínos entre pessoas e canções, mesmo as novas, como Fuh You, produzida por Ryan Tedder justamente para criar um som mais atual.

O carisma de Paul McCartney está integrado na setlist da The Freshen Up Tour assim como as canções. As frases em português foram longas e cuidadosas, como uma verdadeira preocupação para que o estádio compreendesse as falas. A disposição também é um elemento contínuo de apreciação. Assistir a um show de Paul McCartney, que insiste em ficar no palco por mais de duas horas, faz a admiração do público valer ainda mais a pena.

Sir Paul McCartney não tem medo de não parecer um rockstar. Após agradecer à melhor banda do mundo, saiu do palco por alguns minutos, e não voltou com frases prontas em português para arrancar mais gritos da plateia. McCartney subiu ao palco para as três últimas músicas carregando as bandeiras do Brasil, Reino Unido e da comunidade LGBTQ+, expressando seus discursos e defendendo aquilo que acredita. Ao fim da última música, a explosão de papeis picado verde e amarelo não sobrepôs a simplicidade de um último até a próxima (algo que, particularmente, nunca havia visto em nenhum show) e de um beijo simpático para a câmera.

McCartney não se preocupa com as impressões, ou na construção de um grand finale – algo que seria compreendido e ovacionado. Um estádio que vivia um sonho compartilhado pela presença de um beatle não poderia esperar mais do que o talento genuíno de um dos maiores artistas da história, mas em troca da idolatria um singelo Paul apareceu, preocupado com sua audiência como se estivesse no começo, ou como se já estivesse tão alto que não pode ser comparado com ninguém.