Os jovens talentos do Grammys 2019 são mais que rostinhos bonitos

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O Grammys 2019 prometia encontrar a juventude em meio à política desde o anúncio de seus indicados. Apesar da preferência pelo pop existir na premiação, os nomes jovens que estão sempre acompanhados por multidões de fãs leais eram julgados como inexperientes demais para fazerem mais do que tirar fotos e marcar presença. Mas essa ideia de que os novos artistas do pop são apenas rostinhos bonitos vem de fora da premiação.

Em sua 61ª edição, o Grammys decidiu dar mais espaço aos jovens talentos da indústria musical, não apenas com nomes nos assentos mas também nas indicações e performances. Camila Cabello fez história ao ser a primeira latina a abrir a premiação com uma performance inspirada na infância de sua avó, em Havana. Shawn Mendes apresentou In My Blood, canção sobre sua experiência com a ansiedade, ao lado de Miley Cyrus e seus vocais impecáveis. Ariana Grande nem sequer precisou comparecer à premiação para garantir seu primeiro Grammys, de Best Pop Vocal Album, com Sweetener.

Mas nem mesmo a preocupação de Alessia Cara, vencedora em Best New Artist em 2018, em criar álbuns com canções que questionam a sociedade e incentivam o amor próprio, ou a voz esplêndida de Dua Lipa, eleita a Best New Artist em 2019, conseguem fazer com que o talento se sobreponha aos seus anos de vida.

A quantidade de composições e produções autorais, ou autonomia e criatividade: se você é jovem, nada disso importa. Nos comentários de suas fotos é sempre possível encontrar pessoas desmerecendo todo um trabalho porque “Shawn Mendes é apenas um adolescente”, e “Camila Cabello tem apenas um álbum”. Sem contar Ariana Grande, que mesmo trabalhando desde criança em musicais da Broadway e sendo dona de vocais excepcionais, aparentemente ainda tem “muito chão pra andar” antes de poder ser enaltecida como uma diva pop.

Camila Cabello, com apenas 21 anos, já experimentou o lado ruim da indústria, aquele que fazia grande sucesso nos anos 2000, com grupos formados por pessoas controladas pelas gravadoras, que nunca pensaram em compor uma canção – e mesmo se pensassem, seria quase impossível de ser lançada. Camila agora experimenta seu lado genuinamente artístico, com canções autorais e um discurso coerente reconhecido com duas indicações ao Grammys 2019.

Charlie Puth também serve de exemplo. O cantor, compositor e produtor de 27 anos criou seu segundo álbum, Voicenotes, em seu quarto, com um microfone, um teclado e uma mesa de Pro Tools. O disco é o resultado da admiração pelos sons das décadas de 70, 80 e 90. Charlie fez de suas inspirações a música pop da atualidade. O mesmo álbum foi indicado na categoria técnica de Best Engineered Album, que também tem seu nome nos créditos.

Menosprezar tais exemplos pela idade e ‘falta de experiência’ é uma sincera hipocrisia, já que muitos dos grandes nomes, apesar de pioneiros, não se esforçam para escrever suas canções ou produzir seus álbuns. O respeito pelos pioneiros, pelos primeiros a abrirem os caminhos e ditarem os exemplos, deve existir e permanecer. Mas é preciso lembrar que os grandes nomes não são os únicos na indústria, e que pouca idade não significa falta de talento e imaturidade.

Essa busca pela exaltação apenas da originalidade extrema empobrece a música e tudo o que ela representa. A música é uma mistura de inspirações do artista, e se as inspirações não existissem, seria impossível criar a o popular contemporâneo. O escritor Jonathan Lethem disse que, quando as pessoas chamam algo de “original”, nove entre dez vezes elas não conhecem as referências ou as fontes originais envolvidas.

Os grandes nomes também possuem referências do passado, e apesar de parecerem absurdamente originais, são uma bela mistura de tudo aquilo que os inspira. Não é necessário esperar os novos artistas chegarem ao fim de suas carreiras para exaltá-los. É preciso reconhecer o bom trabalho feito presente, e aproveitar a jornada, não apenas as lendas.