Elite reelabora o clichê juvenil com um enredo focado na diversidade da luta de classes

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Por mais fora da realidade que possam ser, os clichês nunca saem de moda. Os uniformes padronizados com gravatas e saias que estampam os posteres de Elite já são o suficiente para chamar a atenção da série. Após a excelência de La Casa de Papel, a segunda produção original da Netflix espanhola não decepciona ao criar um enredo juvenil claramente exagerado, mas definitivamente eletrizante.

A série tem como seu foco a luta entre classes. Após um acidente em uma escola pública, três alunos são selecionados para receber uma bolsa de estudos para estudar em Las Encinas, a melhor escola da Espanha. A presença dos novos estudantes cria um cenário de brigas e intolerância, que resulta no assassinato de Marina, e no mistério que o cerca. O choque entre as realidades fica mais forte em cenários fora da escola, com um estilo de vida espalhafatoso. A diferença entre as personalidades dos personagens da elite e dos bolsistas existe, mas não retrata o clichê entre o rico e o pobre.

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Enquanto Marina quer deixar as festas beneficentes de faxada de lado, Christian faz de tudo para ser reconhecido como membro da parte rica da sociedade. Por outro lado, Nadia não se vê impedida de competir pelo troféu de melhor aluna da escola com Lú e todo o seu privilégio e arrogância. A futilidade no estilo de vida entre os mais ricos acontece, mas sempre com um elemento que vai além do óbvio. A falta de educação é sempre acompanhada de um trio romântico ou a vontade de provar algo, e não apenas pelas já conhecidas mentes vazias.

A diferença entre as classes sociais desperta assuntos que colaboram para a diversidade da série. A xenofobia é apresentada como muitas vezes aparece na realidade, em forma de piada e intolerância. A família muçulmana de Nadia e seu irmão, Omar, estão ali para mais do que preencher a cota de diversidade. O consumo de drogas, a descoberta da sexualidade e a tentativa de que o dinheiro possa, de certa forma, eliminar todos os problemas, assim como o vírus HIV, também são assuntos tratados com uma ótica interessante.

A mistura entre cenas do presente e do que virá após o crime, com os personagens em interrogatórios individuais, passa a impressão de que a série gira em torno do assassinato de Marina. Acompanhar os personagens já sabendo de suas reações nos depoimentos é interessante, mas deixa de ser o centro do enredo em poucos episódios. O desenvolvimento das relações entre os protagonistas se torna mais intrigante do que o próprio mistério, apesar de, em alguns casos, como Marina e Nano, acontecerem rápido demais. A partir disto, o esteriótipo de produção juvenil aparece, com os dilemas românticos com traições e pais desinteressados na educação de seus filhos.

O elenco consegue passar a essência jovem dos uniformes e más atitudes, mas também os conflitos entre os protagonistas que buscam sair do óbvio. Os rostos já conhecidos por La Casa de Papel, como María Pedraza, Miguel Herrán e Jaime Lorente, se unem a todo um elenco que cativa. Elite atrai o público pelo seu bom mistério, com um bom suspense, mas fisga a audiência com as relações entre os personagens e suas diferenças, principalmente as que vão além da classe social.