‘Anne with an “E”‘ transforma a realidade em uma irresistível fantasia que dá um novo significado às possibilidades do amadurecimento

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O equilíbrio entre detalhes positivos e negativos em uma produção normalmente é o que a torna comum. O inusitado aparece quando a tarefa de apontar erros fica praticamente impossível por conta de sua alta qualidade em todos os aspectos. Este é o caso de ‘Anne With an “E”‘, a série canadense de duas temporadas até o momento, distribuída pela Netflix. Inspirada no romance ‘Anne de Green Gables’, a produção consegue extrair a magia da imaginação que um bom livro proporciona, inseri-la em cenários e personagens realistas, e captá-la com câmeras, uma impecável produção e um elenco brilhante.

A admirável atuação de Amybeth McNulty como Anne Shirley-Cuthbert cria o fascinante tom mágico da série, que pode ser compreendido logo nos títulos dos episódios. Anne é uma órfã que passou 13 anos entre um orfanato e casas de estranhos como ajudante, e acabou por ser adotada pelos irmãos Marilla e Matthew Cuthbert. Os poucos minutos com cenas da pacata comunidade de Avonlea antes da chegada de Anne são claros para definir a importância da personagem e como ela transformou por completo o cenário calmo que não existe mais. A protagonista é curiosa e extrovertida, e não se encaixa em nenhuma situação que é imposta. Sua imaginação a guia para questionamentos avançados quanto às regras impostas pela sociedade conservadora que agora também faz parte.

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A série aborda temas diversos a partir do ponto de vista da protagonista, que leva seus pensamentos encantadores e puros para situações reais de discriminação, bullying e o amadurecimento que a necessidade de pertencer a um lugar proporciona. As análises de Anne quanto a esses diferentes impasses moldam seu crescimento, e acabam por ser atuais e relacionáveis com o público. Anne chega à Avonlea como uma garota grata pelo novo, mas também com medo de ser nova. Suas diferenças a estimulam a criar situações agradáveis para todos, e é interessante o perceptível aprendizado colocado na personagem através dessas tentativas de ser aceita por quem ela é.

A segunda temporada apresenta novos cenários e personagens que aumentam a grandiosidade da série e contribuem para o crescimento da protagonista com a criação de novas respostas e dúvidas. Porém, a superação do medo do pertencimento levou Anne a questionar seu futuro. O contato com essas novas situações levantam, mais uma vez, questionamentos contemporâneos sobre a função dos homens e mulheres como indivíduos e o valor de uma carreira escolhida por vocação, e não imposta. Esse segundo estágio do crescimento de Anne consegue ser tão encantador quanto o primeiro, e caracteriza sua imaginação como possibilidades rais que vão além das histórias que ela tanto gosta.

A beleza da série está na boa construção de todos os coadjuvantes, suas famílias e em seus próprios dilemas que estendem o protagonismo para outros núcleos. Isso enriquece a história e abre espaço para as brilhantes atuações de todo o elenco, mas principalmente de Geraldine James e R.H. Thomson, que carregam todo o passado pouco conhecido mas notado de Marilla e Matthew, Dalila Bela, Cory Gruter-Andrew e Kyla Matthews criando uma relação genuína de amizade, que cresce a cada aventura que Diana, Ruby e Cole enfrentam juntos e Lucas Jade Zumann como Gilbert Blythe, que extraiu a essência das dúvidas de seu personagem e a transformou em um grande amadurecimento precoce após um ano viajando a trabalho em um navio.

A essência da série consegue ser passada através da ótima fotografia e direção em conjunto com a direção de arte. Os mínimos detalhes dos figurinos e cenários fazem parte da história como qualquer personagem. A personalidade forte de Anne a indicou por um caminho de pensamentos à frente de seu tempo, criando um incentivo à libertação de costumes que eram impostos como o único caminho a ser seguido. Anne pode ser considerada um retrato genuíno do feminismo, sem estereótipos e obrigações cercando o termo de igualdade, mas apenas a vontade de seguir seus sonhos e conquistar seus objetivos sem precisar escolher um único rótulo que a defina, e com isso, ‘Anne with an “E”‘ transforma a realidade em uma irresistível fantasia que dá um novo significado às possibilidades do amadurecimento.

  • Eu realmente sou apaixonado nessa série. A primeira temporada me cativou muito, agora a segunda eu parei no primeiro ep e pretendo continuar. O roteiro é muito bom, fico feliz que a série esteja ganhando fama.