A simplicidade da decisão na derrota brasileira explica o significado de futebol

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Foto: Reuters

Encarar uma derrota de cabeça erguida não é especialidade do brasileiro. O placar de 2×1 a favor da Bélgica nas quartas de final da Copa do Mundo da Rússia de 2018 trouxe o conhecido gosto amargo que é sempre acompanhado pela vontade de jogar tudo para o alto e reformular uma seleção inteira. O caso é que o futebol não é óbvio, e não pode ser comparado. Não é criticado como filmes, através de categorias de enredo, roteiro, produção e efeitos, e que quando um crítico indica que um filme é bom, mesmo quando é obviamente ruim, é fácil apontar o dedo para a pessoa errada.

O futebol é opinado, e o mais interessante é que também não existe opinião certa ou errada. Se o Fernandinho não fizesse o gol contra, se o Tite não insistisse em seus erros dentro de campo, se Taison e Fred não fossem escalados, se se se… Se uma seleção perfeita, feita com todas as opiniões, fosse criada, mesmo assim seria impossível saber o que teria acontecido. Porque, muitas vezes, a bola simplesmente não entra. Às vezes, é tão simples assim. Porque, por mais que essa seleção perfeita existisse, é um jogo de dois times. E apesar dos erros, nove chutes ao gol foram feitos. Nove. E mesmo que não existissem os erros, a Bélgica continuaria do outro lado, e seus acertos foram enormes.

É preciso parar de tratar todas as derrotas brasileiras como traumáticas. E principalmente, parar de ignorar a presença do adversário, que muitas vezes é bom, assim como a Bélgica. As cinco estrelas na camisa brasileira não vão ganhar uma Copa do Mundo sozinhas, da mesma forma que não levam a pesada obrigação de vencer todos os jogos, afinal não existe fórmula mágica no futebol. O brasileiro tem essa mania de desespero que insiste em apontar o dedo para tudo e todos e ignorar o que já conquistamos. É o costume de analisar placares, e não jogos. Realmente no final o que vale é o placar, mas as análises devem ser compostas por todos os 90 minutos, sem contar o restante da campanha, ou então seriam desnecessárias uma vez que todos podem simplesmente olhar para o número de gols.

A onda pessimista do jornalismo esportivo brasileiro que incentiva a falta de empatia com a seleção

Tite errou em partes em sua escalação, e insistiu em erros dentro de campo, mas ao menos essa é uma das visões. A verdade é que Tite estava ao lado de todos os jogadores diariamente, e provavelmente sabe de estados emocionais e físicos que os torcedores jamais saberão. Seu trabalho é tomar essas decisões, o que o torna a melhor pessoa para analisar o que realmente foi um erro para futuras melhorias. Focar apenas nos detalhes que serviram como oportunidades para a Bélgica é ingenuidade quando o mesmo técnico restaurou a fé na seleção brasileira como uma equipe, e ignorou o que a imprensa estrangeira gosta de apontar, sem fundamento algum, como “o Brasil de Neymar”.

O que falta para o brasileiro é o lembrete de que erros acontecem, e nosso pentacampeonato não pode impedi-los. Nem todas as derrotas são reflexos de uma má campanha, e neste caso, foram infortúnios contados nos dedos que interromperam a continuidade de um ótimo trabalho. Todas as partidas vêm com erros, pois todas as partidas vêm com milhares de torcedores com pontos de vista diferentes para indicá-los. O Brasil jogou muito, e discordar é ignorância. As chances de gol foram claras, e a falta de algo, chamado de competência, sorte, ou simplesmente a bola dentro da rede, não anula a raça brasileira em campo, e todas as tentativas que, dessa vez, infelizmente não foram o suficiente.

Mas os erros não definem a partida, e mesmo se definissem, seria impossível saber qual outro resultado a seleção seria capaz de alcançar, afinal o que chamamos de erros são simples oportunidades para a seleção belga, que não hesitou em aproveitá-los. O Brasil perdeu nos detalhes, mas o resultado teria sido diferente se ao menos mais uma das nove tentativas brasileiras terminassem dentro do gol. Mas isso é o futebol. Nem sempre é traumático, cheio de erros, com um culpado específico ou com um lance que definiu todo o jogo. Às vezes, a bola não entra. Simples assim.