“Voicenotes” comprova a autossuficiência de Charlie Puth ao reunir diversas influências musicais passadas para a construção do conceito de um disco popular atual

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A desconstrução de um padrão popular extremamente específico para alguém que busca por influências em vários lugares ao mesmo tempo. Este foi o desafio de Charlie Puth ao colocar seu nome novamente nos holofotes da indústria musical. Com um primeiro álbum de estúdio, o “Nine Track Mind”, marcado pela descoberta pessoal como um compositor e produtor que retrata várias realidades, seu segundo disco consegue apresentar as próprias vivências do artista. Escrito e produzido inteiramente por Charlie, o “Voicenotes” comprova um amadurecimento musical autossuficiente ao reunir influências diretas e diversas de décadas passadas para construir todo o conceito de um disco popular.

O fato do álbum representar a nova e real essência musical de Charlie Puth pode ser notado na faixa que abre o disco, “The Way I Am”, em que o cantor se enquadra em um gênero de composição explorado por vários artistas atualmente, aquele que deixa a sinceridade sem maquiagens em evidência. Apesar da primeira faixa ser sonoramente diferente de tudo o que já foi criado por Charlie, a segunda canção definiu o rumo do disco. “Attention” é uma completa mistura de referências. É como se um espaço entre os anos 1999 e 2000 fosse idealizado pelo cantor, aproveitando a sequência de influências musicais causada pelas décadas de 70, 80 e 90 gradativamente, levando ela como base direta para a criação do “Voicenotes”. As influências de “Attention” vêm embaladas em um som grave que tem como base o jazz, o disco, o soul, o funk e o R&B em sua forma mais dark, reproduzindo uma popularidade cercada de influências criada pelo próprio Charlie Puth.

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Essa surpreendente mistura de gêneros criou uma sonoridade única e corajosa para marcar um álbum, que se estendeu por todas as canções, como “How Long”, “Done For Me”, “Boy”, “Slow It Down” e “Empty Cups”, além daquelas que representam o que seriam as baladas do disco, como “Patient”, que mesmo assim sempre vêm acompanhadas de um teclado eletrônico e uma batida como complementação. Em canções como “LA Girls” e a audaciosa a cappella “If You Leave Me Now”, a influência gospel que marcou a carreira de Puth até então volta a aparecer, com as sobreposições da voz de Charlie servindo como enfatizador nas canções, criando uma surpreendente sonoridade quando colocada em canções marcadas pelo disco e pelo funk, completando as referências do álbum.

Existe um senso musical no “Voicenotes” que apenas um álbum assinado por inteiro por uma pessoa poderia apresentar. Os ótimos vocais de Charlie Puth estão mais agudos, e completam o ritmo propriamente. O artista nota quando o ritmo deve ser substituído pela voz como efeito sonoro ou quando um novo elemento deve ser acrescentado, e também como misturá-los com outros, mesmo quando nenhum outro artista da indústria faria o mesmo. As composições funcionam como um diário aberto de Charlie, onde suas experiencias e visões de mundo podem ser encontradas ao som das referências musicais do cantor. Apesar do romance em suas várias etapas representar o disco, Charlie expõe um lado de inseguranças e opiniões para a música, como em “The Way I Am”, “Change” e “Through It All” – que consegue fechar o álbum com naturalidade, sem precisar complementar espaços para tornar o “Voicenotes” seu melhor trabalho.

Criado inteiramente com um teclado, um microfone e um equipamento de Pro Tools, o “Voicenotes” prova que a competência artística não depende de estúdios caros e produtores renomados, mas sim do artista assumir tal rótulo e criar sua própria arte. Em sua melhor forma, Charlie Puth consegue estar nos créditos de todas as canções de seu álbum como cantor, compositor, produtor e instrumentista, representando o melhor do cenário musical imediato. Ao conseguir criar um material atual com influências extraídas de décadas passadas, vivências diversas e lugares peculiares, Puth se consolida como um artista completo e independente, que possui sua essência no talento e em sua sagacidade que o leva a realmente compreender a estrutura de todas as referências que utilizou e corajosamente misturou em suas canções, e, a partir delas, transformar o aclamado passado em seu próprio prestígio.


  • Giuliana Rossi

    Crítica muito bem escrita e analisada, com termos técnicos, diferente de qualquer outro site de entretenimento, que apenas analisa se o álbum é bom e se fará sucesso. Respeito muito seu conhecimento e reconhecimento de artistas verdadeiros, continue assim. Já vou recomendar o site para amigos.

    • Fico muito feliz em saber que você se identifica e apoia esse conteúdo. Muito obrigada, Giu!