Expandindo o universo da distopia brasileira, segunda temporada de “3%” cria um desenvolvimento certeiro para o enredo ao focar nos personagens

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No país onde o entretenimento nacional já foi pouco reconhecido e muitas vezes deixou de ser consumido simplesmente por apresentar um selo de produção brasileira, uma história distópica conseguiu cativar o público e começar a mudar esse pensamento. Um ano e meio após o seu lançamento mundial, “3%” está reassegurando o seu sucesso. A primeira produção original da Netflix Brasil abriu portas para outros enredos conquistarem seu espaço na plataforma de streaming e aparecerem nas listas de entretenimento a ser consumido por telespectadores de mais de 190 países. Com a segunda temporada, além de funcionar como incentivo, a série também cresceu e apresentou um desenvolvimento inteligente para a trama.

Em um Brasil distópico onde apenas 3% da população vence o Processo e é julgada merecedora para viver com o conforto que o Maralto pode proporcionar, os 97% restantes estão em situações precárias no Continente. Enquanto a primeira temporada foi centralizada na realização do Processo, a segunda focou em apresentar o amadurecimento dos protagonistas em relação aos acontecimentos passados. Os roteiristas conseguiram fazer com que o universo da série e seus personagens sustentassem os dez episódios, sem precisar mostrar as peculiaridades do Processo novamente para despertar o interesse do público. O risco, que acabou por funcionar, de criar um enredo além do Processo mostra o potencial da série para produzir várias temporadas.

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A exploração inédita da fartura, da tecnologia e dos detalhes que criam o Maralto é encantadora e curiosa, e gira ao redor do discurso do merecimento, em que todos acreditam. O mesmo acontece no Continente, que possui os ótimos elementos que compõem o lugar enquanto é presente a demonstração da mesma veneração ao casal fundador e a visão sobre o Processo como um milagre obrigatório. A apresentação dos criadores do Maralto ajudou a caracterizar o contexto de divisão, contribuindo para a trama. A boa demonstração dos dois extremos, o Maralto e o Continente, possibilitou a introdução de novos personagens que contribuíram para o crescimento da trama. Laila Garin e Cynthia Senek como Marcela e Glória ilustram perfeitamente os dois lados e ajudam o público a conhecê-los através de sua cultura e personalidade.

O crescimento dos protagonistas já conhecidos acontecem de acordo com as personalidades. A lealdade de Rafael à Causa e todos os seus esforços para ajudá-la ficam mais claras e definem o personagem, enquanto Joana ganha um papel na revolução ao se posicionar no mesmo lado, tornando a Causa mais caracterizada e aumentando sua importância na série. Por outro lado, Fernando representa a insatisfação com a veneração criada ao redor da ideia do Processo, e Michele não escolhe lado algum, tornando seus dilemas cansativos até o final, onde finalmente foi decisiva e trouxe o protagonismo para ela novamente. Pelo fato de ser o centro da trama, o progresso dos personagens foi crucial para a boa continuidade da história, algo que só foi possível pela evolução das atuações de Rodolfo Valente, Vaneza Oliveira, Michel Gomes e Bianca Comparato, que estão em uma maior sintonia com as personalidades dos protagonistas e conseguem retratá-los vivamente, principalmente quando estão em cena juntos.

A série acerta ao focar nos personagens e em seus objetivos individuais. É interessante ver como os mesmos que participaram do Processo 104 se encontram separados na trama, e como reagem às várias e boas reviravoltas e surpresas que aparecem – algo já característico da primeira temporada. A segunda temporada provou que consegue trabalhar com o difícil e criar enredos individuais que montam uma única história que cresce gradativamente. A riqueza dos elementos criados na produção poderia assegurar o sucesso da série, mas surpreendentemente o que acontece é o desenvolvimento do que já foi apresentado, visando o futuro do que já é distópico, criando uma expectativa para a continuidade e o futuro do universo de “3%”.