Através da ótima produção, “O Mecanismo” representa a indignação popular enquanto promove a análise da realidade sem ideologias

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Foto: Pedro Saad/Netflix

A indignação popular quanto aos assuntos da realidade brasileira é praticamente ignorada em um entretenimento nacional que prefere divertir – algo que não é errado ou problemático de forma alguma, mas levando em consideração as tamanhas atrocidades que acontecem na política brasileira, e a frequência com que elas estão aparecendo, as audiências começaram a abrir seus horizontes e permitir que retratos da triste realidade corrupta do Brasil sejam explorados e, principalmente, consumidos. Sendo esse o caso, “O Mecanismo” leva como rótulo o fato de ser a segunda série original da Netflix Brasil e uma das primeiras produções a encarar o fato de reproduzir a realidade nada agradável do país. Vale a pena ressaltar que a série é uma obra de ficção que levou a realidade como inspiração e não como obrigação – algo que é recordado no início de todos os episódios -, deixando a produção no completo direito de alterar, excluir ou adicionar momentos que não condizem com a realidade, afinal o entretenimento, por mais que retrate o real, possui a simples obrigação de entreter.

Após “Narcos“, José Padilha volta à Netflix ao lado de Elena Soarez com a série de sua direção e criação inspirada na operação Lava Jato. O que torna o enredo ainda mais interessante do que sua inspiração é o centro fictício criado ao redor dos personagens principais. A relação pessoal entre Ibrahim, um político corrupto, e Marco Ruffo, um delegado da Polícia Federal, cria uma intensidade maior para a trama, transformando o trabalho de Ruffo em uma obsessão que acaba virando motivo na medida em que os episódios se passam. O desenrolar da história acontece na medida certa, e aparenta uma preocupação de certificação de que o público consegue captar todos os detalhes da lavagem de dinheiro. Esse avanço certeiro da narrativa é acompanhado de perto pelos personagens. Enquanto Ruffo fica mais instável, as expressões de deboche e segurança nas faces dos políticos vão transitando para o medo. Isso só é possível pelo fato dos personagens serem muito bem construídos, com personalidades fortes e sem exageros, possibilitando seu crescimento natural no roteiro.

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As atuações ficam em evidência ao surpreenderem e acompanharem o desenvolvimento dos personagens. Caroline Abras, Enrique Díaz e Leonardo Medeiros brilharam em seus papeis, mas um maior destaque deve ser atribuído ao Selton Mello, que transmitiu toda a profundidade causada pelos transtornos psicológicos de Ruffo, e acrescentou ao roteiro as pesadas reações de como as descobertas de seu personagem mudavam seu humor. Alguns detalhes técnicos também conseguem chamar atenção, como as narrações que ressaltam a indignação e profundidade dos protagonistas, a trilha sonora quase completamente brasileira, a fotografia com alguns panoramas e a mudança de cidades como cenários que cria uma identidade para a série.

É muito interessante observar a forma como a realidade brasileira é tão tragicamente complexa que pode ser romantizada ao ponto de se tornar uma ótima produção policial com todos os elementos típicos desse gênero. Os políticos corruptos e debochados, o policial obsessivo e transtornado e elementos que humanizam cada personagem são detalhes que aparecem em várias tramas, e que, no caso, foi espelhada no real. Porém, apesar da série ter um roteiro original, as referências à realidade do Brasil são ótimas e bem estruturadas. Todos os elementos, desde nomes e apelidos até empresas, foram bem construídos e associados. Além disso, algumas situações do cotidiano foram utilizadas como metáforas para detalhar a diferença entre a facilidade da vida dos corruptos e a dificuldade do povo brasileiro.

O nome da produção representa a descoberta, ou ao menos a compreensão, de que a corrupção está em todos os lugares, sendo um mecanismo que nunca para de girar. Levando a realidade brasileira como inspiração, a série instiga o olhar crítico para situações que a população normalmente ignora enquanto perde tempo dando importância aos detalhes que os políticos culpados querem exaltar. A mensagem principal é clara e pode ser resumida em uma frase do último episódio, “Juízo Final”, onde Ruffo afirma que o mecanismo “não tem partido, não tem ideologia, não existe esquerda ou direita“, mas está em tudo e em todos. “O Mecanismo” atua como uma releitura da situação política brasileira que inspira a análise da realidade como ela é, sem manipulações e discursos que encobrem os crimes, e, ao contrário das inúmeras críticas que não conseguem ser escritas imparcialmente sem transformar cada linha em opinião política (de qualquer um dos lados), a segunda produção original da Netflix Brasil consegue fazer esse trabalho muito bem feito, e principalmente, sem ideologias.

  • jady santos

    Ainda não assisti a série, mas tenho muita vontade de assistir.
    Acho que isso deve ser visto pelas pessoas, mas parte delas só quer ver que tudo é uma mentira e blá blá, ao envez de aproveitar e aprender algo, ou apoiar a justiça. As pessoas não sabem a diferença entre o baseado em fatos e inspiração. De qualquer modo não 100% a realidade, não dá. mas é uma coisa com a qual devemos aprender, não sermos corruptos.

    Garota, Era uma vez
    http://garotaeraumavez.blogspot.com.br/

    • Exatamente, Jady! As pessoas se preocupam em encontrar algo errado (que no caso, nem errado é), do que assistir e ter uma opinião imparcial. A série é ótima, super recomendo!