Em meio à qualidade diversificada dos indicados, Grammys 2018 tem como foco a simplicidade e enaltece o talento ao espalhafatoso

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Foto: Matt Sayles/Invision/AP

É fácil afirmar que na sexagésima edição do Grammys os discursos inspiradores e a honesta vulnerabilidade dos artistas foram mais importantes que os troféus. A simplicidade foi exaltada, e dessa vez, as chamativas grandes produções não foram o centro das atenções. É um novo tempo para a indústria musical, que está cada vez mais apresentando um conceito honesto e limpo, onde artistas verdadeiros são reconhecidos pelo seu talento. Para a felicidade dos consumidores dessa nova indústria, tal essência esteve presente nas apresentações e discursos, deixando o conceito da premiação o mais simples possível, que preferiu a inspiração ao choque, a simplicidade ao luxo e o talento ao espalhafatoso.

Algumas performances funcionam como exemplos perfeitos da preferência em elevar o singelo. A melhor performance da noite ficou com a simplicidade de uma apresentação acústica envolvendo um piano e um violão: Lady Gaga e o incrível produtor de “Joanne“, Mark Ronson, apresentaram um pequeno mashup delicado de “Joanne” e “Million Reasons” – os vocais de Gaga levaram uma profundidade impecável para a canção ao vivo. Luis Fonsi e Daddy Yankee finalmente apresentaram a música do ano de 2017, “Despacito“, em uma premiação americana – a canção é alegre e contagiante, mas é impossível não sentir uma pontada de emoção ao ver o ritmo latino no palco principal da maior premiação da indústria musical. Uma Pink emotiva apresentou seu novo single, “Wild Hearts Can’t Be Broken”, vestindo calças jeans e camiseta, e provando a teoria de que, atualmente, menos é mais, e o talento fala mais alto. Para completar, Kesha prestou uma homenagem às vítimas de assédio sexual com a ótima “Praying” – seus vocais sem controle se tornaram um ponto positivo para a mensagem, deixando a cantora ainda mais vulnerável ao lado de Camila Cabello, Cyndi LauperBebe Rexha, Julia Michaels e Andra Day.

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De certa forma, seria injusto usar o termo “injustiça” para o Grammys 2018. Existem centenas de pensamentos divergentes às opiniões da Academia, e eles sempre irão existir. Particularmente, estou longe de concordar com tudo – “Joanne” deveria ter sua indicação em Album of The Year, “Despacito” simplesmente é a Record of The Year e “1-800-273-8255” com sua composição inspiradora ganharia em Song of The Year. Alguns provavelmente concordam e outros discordam, e dessa forma é feita a votação da Academia para eleger os indicados e vencedores. Limitar a diferença de opiniões em preconceito ou machismo pela falta de mulheres indicadas é hipocrisia. Vale lembrar que na maioria das categorias não é o cantor ou cantora quem recebe o prêmio, mas sim produtores, compositores e engenheiros de som. Dessa forma, a luta não deveria ser essa genérica afirmação de que Kesha e Lana Del Rey deveriam ter sido indicadas à Album do Ano – deveria ir além, para uma pesquisa de quantas compositoras e produtoras existem nos álbuns já indicados, afinal elas também serão premiadas. De qualquer forma, uma premiação não deve pensar na quantidade de homens, mulheres, americanos, europeus, asiáticos, brancos, negros ou pardos que está indicando, mas sim nas músicas que está indicando. O que importa para o Grammys, e o que deveria importar para a audiência, é a música e sua qualidade, não o gênero de quem a criou.

rs_1024x759-180128201328-1024-bruno-mars-12818Foto: Getty Images

Honestamente acredito que todos os nomeados ao Grammys deveriam ser premiados. Uma indicação significa que o trabalho em questão foi considerado um dos melhores do ano, e isso já é algo a ser comemorado. O resultado pode e deve gerar discussões saudáveis, além de incentivar as expressões de opiniões na internet – dessa forma, a audiência aumenta seu senso crítico. Porém, é necessário lembrar que o Grammys não possui nada semelhante às premiações adolescentes de voto popular, quando indicações se limitam às imagens e nem ao menos conhecem os nomes dos compositores, e onde brigas são criadas porque o artista que aparentemente merecia mais, não venceu. Ao vencer na categoria de Álbum do Ano, Bruno Mars foi criticado por receber o prêmio, enquanto outros álbuns com composições mais sentimentais foram deixados de lado. Por essa situação, vale lembrar que não se trata de uma competição de quem possui o maior sofrimento, mas sim da comparação das diferentes formas de qualidade apresentadas. O fato das canções do “24K Magic” ou serem alegres não as tornam inferiores às baladas sentimentais. O que foi julgado é a qualidade – e é possível literalmente ouvi-la em cada produção do terceiro álbum de Bruno Mars.

Em uma indústria musical em constante mudança, o Grammys 2018 colocou a simplicidade como foco. Um novo cenário musical pode ser imaginado ali mesmo, no palco da maior premiação da música. Essa nova esperança tem o rosto de talentos verdadeiros já consagrados, mas acompanhados de outros que carregam essa mensagem de simplicidade e foco na arte. Alessia Cara, a Artista Revelação, fez um ótimo trabalho em resumir e apoiar essa nova geração genuinamente artística em uma frase: “existem artistas incríveis por aí que estão fazendo músicas incríveis e merecem ser reconhecidos mas nem sempre são reconhecidos por conta dos concursos populares ou números e isso é meio lamentável, então eu gostaria de encorajar todos a apoiarem a música verdadeira e artistas verdadeiros porque todos merecem a mesma chance“.