Sendo uma análise humana com atuações delicadas, “The End of the F***ing World” inspira a reflexão sobre o verdadeiro papel do entretenimento de entreter e não educar

0
23

Seguindo a linha de ótimos investimentos em produções muito bem criadas, a Netflix apresentou “The End of the F***ing World“, uma série curiosa a ponto de intrigar e com um roteiro a ponto de amedrontar. A produção britânica fugiu do usual e do clichê de adolescentes problemáticos que procuram uma desculpa para fugir de casa, girando em torno de James e Alyssa – levados à vida por Alex Lawther e Jessica Barden, que interpretaram com uma delicadeza única os problemas que cercam as personalidades dos jovens transtornados. A série gira em torno das descobertas dos protagonistas, dessa forma, com a ótima atuação e construção dos personagens, muitas vezes os cenários e situações foram deixados em segundo plano, criando um foco nos dilemas apresentados.

O clichê é esquecido quando a série se torna mais do que jovens fugindo de casa. Os problemas são apresentados, assim como seus prováveis motivos, como famílias conturbadas, abusos e educações que não foram bem feitas. No ponto em que o telespectador é introduzido a esses motivos, a aventura fica de fora e a produção se transforma em uma análise humana quase psiquiátrica de todos os personagens, sendo o papel da audiência praticamente o mesmo da polícia que corre atrás dos jovens. “The End of the F***ing World” apresenta um roteiro impecável que viaja sem falhas para o passado dos protagonistas nos momentos certos, apresentando suas inseguranças não expostas e com diálogos típicos de um drama envolto em humor negro.

Leia também: “Dark” sai do clichê de ficção científica e exibe uma complexidade unicamente fascinante que encanta e desafia o telespectador

Por outro lado, “The End of the F***ing World” apresenta uma oportunidade de reflexão dos consumidores da indústria do entretenimento ao deixar claro a hipocrisia presente em relação à problematização de conteúdos – que já provou ser relativa. Quando algo é criado por uma pessoa desfavorável à mídia, todos os motivos são claros demais para incriminar tal produção de incentivo. Um grande exemplo é o filme “Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola“, com roteiro escrito por Danilo Gentili. O filme de comédia foi acusado de incentivar crianças e jovens a praticarem furtos, mal comportamento e até mesmo a induzir a pedofilia por apresentar cenas de comédia. A produção da Netflix mostra todos esses elementos de maneira completamente explícita, e todos estão implorando por uma segunda temporada.

A questão está longe de favoritismo, afinal cada indivíduo é livre para gostar ou não gostar de algo. O ponto volta a ser o fato do entretenimento não ter a responsabilidade de educar seus consumidores, mas sim de entreter. Seja em um filme besteirol brasileiro, um vídeo de um adulto mergulhando em chocolate no YouTube ou uma produção da Netflix, todos são conteúdos do entretenimento e todos possuem um público. O fato de um deles ser considerado cult e estrangeiro não o deixa mais inocente. Em outras palavras, “The End of the F***ing World” apresenta suicídio, assassinato, roubos e pedofilia, e não há nada de errado nisso, afinal é uma série criada para entreter, e não educar – e esse é o pensamento que também deve ser levado no julgamento dos conteúdos nacionais.

A incrível produção em conjunto com o roteiro impecável e as atuações delicadas criam um time singular que cativa um público corajoso o suficiente para encarar a realidade que os problemas de James e Alyssa criaram para os dois. Ao som da trilha sonora que inspira a rebeldia, é possível analisar todas as perspectivas em todas as situações. “The End of the F***ing World” apresenta conflitos adolescentes que envolvem dúvidas e descobertas em um contexto realístico, sendo esse o fator principal de diferenciação da série de todos os outros clichês.