Divisão artística da reputação e realidade de Taylor Swift em “reputation” cria uma inigualável qualidade sem precedentes

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O que se iniciou como um conceito claro e específico acabou se desenrolando como algo mais complexo. O significado de “reputation“, que até o lançamento do álbum se tratava de um deboche artístico, se transformou em uma mistura dessa comicidade já esperada com um novo modo de Taylor Swift expressar seus sentimentos e vida pessoal através de suas canções. A cantora criou uma auto representação de uma rainha que perdeu sua coroa, e com ela tudo o que tinha. O disco é sobre como seu reinado foi destruído, e junto da destruição, uma reputação foi criada. No fim das contas, o que seria um álbum fixado em uma vingança de uma persona criada pela mídia, veio a ser a demonstração explícita dos dois lados que representam a reputação da cantora: o que a mídia criou e o verdadeiro, onde ela precisa lidar com o primeiro.

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Assim como todas as alegações sobre Taylor Swift na mídia, as faixas do “reputation” são histórias fora de ordem, que não apresentam um padrão e não se preocupam em deixar uma explicação para o ouvinte compreender quais fazem parte dos pensamentos da vilã pintada pela mídia e quais compõem uma Taylor tentando viver em torno de uma reputação. Porém, apesar das quinze faixas estarem embaralhadas, é uma tarefa simples identificar tais canções e separá-las em suas devidas categorias através das composições, que representam muito bem essas duas personalidades. Músicas que compõem a lista criada pela vilã idealizada, como “End Game“, “I Did Something Bad” e “Don’t Blame Me“, possuem versos característicos que indicam esse deboche que afirma que, quando se trata de Taylor Swift, nada nunca é o suficiente, afinal ela está sempre procurando por um novo romance para escrever suas canções. A parte interessante é que, assim como em “Look What You Made Me Do“, Taylor não pretende explicar as acusações, mas sim incorporá-las: “eles conseguiram seus forcados e provas, seus recibos e razões“, “não me culpe, o amor me deixou louca“. Pelo outro lado, compostas por uma Taylor Swift que tenta viver em meio à uma reputação criada por terceiros, estão “So It Goes…“, “Gorgeous“, “Delicate“, “Dress” e “King Of My Heart“. Todos esses exemplos mostram a ótima artista que já estava presente nos álbuns anteriores, aquela que consegue colocar seus sentimentos nas composições como ninguém, porém dessa vez com uma realidade romântica mais pesada e menos agradável. Tais canções possuem suas essências nos pré refrões, ou bridges, onde a cantora está mais vulnerável e explica a essência da faixa em algumas frases.

Algo interessante de ser observado é uma terceira categoria. Em meio às canções românticas da verdadeira Taylor, existem algumas faixas que são cobertas por uma máscara literária. As inspirações da cantora em músicas como “So It Goes…” e “Getaway Car” se transformam em metáforas com personagens e cenários fictícios, levando as composições do álbum para um patamar ainda mais alto. Tal forma de expressão artística, que envolve criar um enredo fantástico para uma realidade, é tão impressionante que acaba transformando as canções em pequenos filmes que acontecem na mente do ouvinte. Outra surpresa é a junção das duas categorias predominantes do álbum em uma canção. Se trata de “This Is Why We Can’t Have Nice Things“, onde a Taylor que possui uma reputação se uniu com a Taylor que debocha da situação. A música é absurdamente cômica, e trata de modo despreocupado suas brigas e desavenças, além de reforçar que seus verdadeiros amigos não se importam com a situação.

Porém, o que conseguiu capturar toda a essência do “reputation” foi a produção do álbum. A mesma equipe de compositores e produtores participou da criação de todas as faixas, sendo Taylor a principal presente em todas as composições e produções das quinze faixas. Apenas esse fato já é o suficiente para compreender que o álbum é homogêneo, sendo sinônimo de qualidade quando se trata de produções. Mas, a adição de nomes como Max Martin, Jack Antonoff e Shellback, tornou o conceito do disco inigualável através de seu ritmo. As batidas pesadas criaram uma identidade para o álbum que se estendeu por todas as músicas. Em várias faixas, foi usado o empilhamento de camadas de vozes da cantora, criando vibrações populares e referentes à canções gospeis. Esse feito tornou ápices de canções como “Don’t Blame Me” ainda mais cativantes. Outra aposta que ajudou a formar a essência mais sombria do álbum foi o uso do efeito vocoder, a voz robótica presente em “Delicate” e “Getaway Car”. Além disso, para completar o esplêndido trabalho da ficha técnica do “reputation”, as colaborações com Ed Sheeran e Future em “End Game” estabelecem perfeitamente o nível do álbum, que não pode ser superado nem mesmo pelos anteriores da cantora.

Taylor encerra o álbum com “New Year’s Day“, dando um significado ainda maior para o disco. Através da canção, ela prova que a ‘antiga Taylor’ não está morta, mas mais viva do que nunca. A canção retrata a cantora e compositora de uma forma extremamente vulnerável, assim como nos antigos discos, falando sobre amor e o que ela acredita ser o certo. O “reputation” foi mais do que um conceito, mas uma necessidade. Em uma indústria musical e midiática onde todos fazem questão de afirmar que nada que Taylor Swift faz é o suficiente, uma resposta estava sendo aguardada, e foi muito bem entregue, indo além do deboche, mas também retratando o lado verdadeiro que, muitas pessoas ainda irão se recusar a ver, mas que agora está exposto. Taylor Swift conseguiu suas próprias provas e motivos, e os entregou no que pode ser o maior álbum de sua carreira, embrulhado em uma qualidade sem precedentes, e com um recibo irônico anexado à embalagem.