Promovendo a inclusão de novas sonoridades na indústria musical, performance de BTS no AMAs cria um novo padrão para o K-pop

0
33

O cenário da música popular sempre girou em torno dos Estados Unidos, chegando recentemente à Europa. Isso possibilitou com que um certo pré conceito fosse criado em relação a qualquer ritmo ou artista que venha de fora dessa zona de conforto, onde muitas vezes talentos foram esnobados pelo fato de não serem americanos, enquanto outros da própria América do Norte são enaltecidos enquanto não compõem uma única canção. Sendo algo completamente inédito não apenas na televisão americana mas também no alcance de milhares de pessoas que acompanham o American Music Awards de seus respectivos países, a performance do grupo sul-coreano BTS deixou todo o ocidente em estado de choque. Ao som de seu single atual, “DNA“, os sete jovens integrantes da boy group apresentaram não apenas seu sucesso acompanhado de gritos da plateia da própria premiação, mas também introduziram ao restante do mundo uma parte da indústria musical que ainda não era conhecida e estava longe de ser apreciada.

Leia também: Harry Styles apresenta um contagiante abstrato que intriga e diverte através do clipe de “Kiwi”

O K-pop como um gênero possui uma forma de criar seus grupos muito determinada, sendo através de agências que treinam indivíduos até estarem prontos para serem colocados em uma equipe específica. Esse processo, e até mesmo o seguinte após o início das bandas, na maioria das vezes é absurdamente focado na imagem e vem a ser cruel. Todas as histórias que os Estados Unidos apresentam repetidamente que envolvem artistas que não produzem seu próprio conteúdo e não passam de simples fantoches nas mãos das gravadoras são como um sonho para quem procura estar em um grupo na Coreia do Sul. Com um regime extremamente conservador, a própria expressão artística também é controlada, sendo impossível o nome de alguns cantores do gênero aparecerem nos créditos das composições e produções. Esse topo da indústria musical coreana é o pior que poderia acontecer em relação a contratos ofertados. Tal modo de lutar pelo sucesso não deveria ser apreciado e muito menos consumido.

Felizmente, BTS está em uma categoria mais flexível e tolerante. Seus álbuns lançados até então possuem a participação de todos os integrantes em suas composições e, muitas vezes, nas produções. Os sete membros do grupo possuem um talento genuíno para a dança – sendo suas coreografias o principal artefato para terem chamado tanta atenção no último AMAs, ao cantarem uma composição de alguns integrantes da banda, em coreano, durante uma premiação americana. Para um público que está acostumado a consumir álbuns inteiros que pretendem vender apenas a imagem da pessoa que performa as canções, é surpreendente observar um grupo inusitado da Coreia do Sul que faz mais do que seus artistas americanos favoritos conhecidos mundialmente por ganharem prêmios em categorias musicais sem ao menos escreverem as músicas indicadas. Esse choque de realidade deve proporcionar no mínimo uma curiosidade que leva o telespectador a buscar mais sobre artistas que vão além do oceano, e também a comparar aqueles que são encontrados aos que já são conhecidos.

Porém, a enorme repercussão da performance de BTS na premiação representa mais do que inclusão em uma indústria que deveria ser mundial. Com uma maneira tão desumana de oferecer a realização de um sonho de se tornar um artista na Coreia, é possível que o imenso sucesso de BTS – com suas composições próprias que passam uma mensagem de resistência à sociedade – possa criar um novo padrão de ser bem sucedido no K-pop. O triunfo de emplacar músicas nas paradas mais concorridas e conquistar milhares de fãs com outras nacionalidades pode inspirar tais agências sul-coreanas a repensar seu modo de trabalho, levando em consideração que os contratos menos rígidos estão se saindo melhores do que os próprios.

Não é como se um milagre pudesse acontecer do dia para a noite em uma cultura que está acostumada com o conservadorismo, afinal tal ato de vender a imagem acima da arte é extremamente presente e consumido no ocidente. O importante é a conscientização do certo e errado, e o debate do “até onde é interessante admirar pessoas que estão sendo praticamente exploradas?“. Pequenas ações como uma discussão sobre o assunto ou uma performance no AMAs pode atrair os olhares para uma parte obscura da indústria que possui muitos talentos a serem descobertos e valorizados.