A desnecessária discriminação sobre a música atual brasileira que deve ser substituída pela valorização dos artistas

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Quando o assunto é música nacional, na maioria das vezes antes mesmo da conversa se desenvolver você irá observar alguém ficar de cara feia, outro parar de prestar atenção, e outro alguém falar “Hoje em dia a música está perdida”. É realmente muito fácil afirmar isso com base no que a maioria está cantando, que sim, muitas vezes não passa de letras fúteis com melodias desgastantes. Porém, o que ninguém está percebendo é que existe uma diferença entre sucessos atuais e música atual, e esse detalhe existe no mundo inteiro. Não é pelo fato de que o topo dos charts ou os vídeos mais assistidos do Brasil são de uma espécie de conteúdo desnecessário que todo tipo de conteúdo nacional será assim.

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O Brasil é um país muito diversificado culturalmente, isso traz várias opções para os artistas criarem aquilo que desejam vender. Essa incrível mistura de ritmos e gostos ainda existe, basta o público ao menos ouvir antes de julgar, afinal ninguém pode ficar preso no passado ao ponto de, sempre que ouvir um rock atual tocando, falar que apenas bandas como Legião Urbana produziam algo bom. O Brasil no geral precisa se desprender e parar com esse preconceito gratuito apenas para não “fazer parte” do grupo atual de pessoas, afinal você ouvindo músicas atuais ou não, sempre fará parte dessa geração, não importa o quão diferente seja. De forma alguma estou dizendo que a música atual seja melhor ou pior do que a das gerações anteriores, o que estou defendendo é que sim, existem coisas boas agora como existiram no passado, a única coisa que não existe é a aceitação da sociedade pelo simples pensamento de que tudo atualmente é ruim, e eu garanto, não é.

Outro fator que faz com que a sociedade brasileira discrimine a música nacional é a música internacional, principalmente a americana e européia. Todos veneram Beyoncé, adoram Rihanna, dançam com Bruno Mars e choram ouvindo Ed Sheeran, mas no momento em que começa a tocar Anitta ou Ludmilla em uma loja ninguém quer ao menos ouvir, porque aparentemente “Ela só sabe rebolar” “Suas letras são fúteis”. E então o questionamento é: Quem pensa assim é contra artistas que rebolam? E contra letras fúteis? Se for isso, sem problemas, toda opinião deve ser respeitada. Mas aposto que ao ouvir algum hit de Fifth Harmony não pensa duas vezes ao começar a dançar e dizer o quão talentosas elas são, sem ao menos parar para ouvir a letra que é provavelmente algo como “Você não precisa ir trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar…“.

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O significado de fútil é algo que não tem importância ou mérito. Anitta participou da composição de todas as quinze músicas de seu último álbum, “Bang“. Atua constantemente nas produções de seus clipes – que em minha opinião são os melhores do Brasil. Possui shows com produções muito boas, e além disso dança incrivelmente bem. Anitta pode ser chamada de muitas coisas: cantora, dançarina, compositora e apresentadora, mas fútil é claramente uma palavra que não se aplica à ela. Por outro lado, Ludmilla ainda está no segundo álbum, criando suas essências como artista. Apenas quatro músicas de seu álbum extremamente bem produzido foram compostas por ela, mas isso já é muito mais do que muitos artistas estrangeiros já fizeram.

O Brasil possui essa diversidade tão grande que, muitas vezes, o que os artistas fazem é mudar seu ritmo. Foi o caso de Anitta e Ludmilla. Outro exemplo é Luan Santana, que migrou do sertanejo para algo mais pop e conseguiu fazer com que isso funcionasse de maneira perfeita. Em minha opinião, seu penúltimo álbum, “Acústico“, foi a ponte para o completo sertanejo ao pop, e também ao meu ver, é o melhor disco do cantor. Seu último álbum, “1977“, possui um significado incrível ao homenagear as mulheres. Cinco cantoras foram convidadas a fazerem participações em algumas faixas, pelo mesmo significado. O DVD é claramente um trabalho muito bem feito, em um estúdio com ar bem íntimo. Luan saiu da zona de conforto de DVDs gravados ao ar livre e conseguiu criar um trabalho maravilhoso que vem melhorando a cada dia.

Acredito que o único fator que ainda faz falta no cenário musical brasileiro são as composições mais arriscadas e completas. A maioria dos artistas compõem uma estrofe e o refrão, e após isso, repetem a primeira estrofe. As letras mais preenchidas seriam o último acerto a ser dado para o crescimento em grande escala da música brasileira. O único artista nacional que escuto e que realmente já cria as composições completas é Tiago Iorc, em seu ótimo “Troco Likes”.

A arte da capa já é cativante o suficiente para abrir e começar a escutar. “Troco Likes” é um daqueles álbuns que não é necessário pular nenhuma música, você simplesmente o escuta por inteiro, e após isso, coloca no repeat. Se eu não gostasse tanto desse álbum, diria que o incrível DVD, “Troco Likes Ao Vivo“, conseguiu superá-lo. Gravado com uma grande produção cinematográfica em formato para o cinema, virou sem dúvidas o melhor DVD brasileiro lançado em 2016.

Existem alguns artistas que não são completamente novos no mercado e que conseguiram se reinventar. NX Zero por exemplo, pós cinco álbuns de estúdio, a banda resolveu criar algo diferente e arriscar sair do contrato e criar o “Norte“, lançado por uma gravadora completamente independente. Isso prova o quanto eles são dedicados a sua música, ao ponto de deixar para trás um contrato para seguir o que acreditam que seja o certo. “Norte” é um dos melhores, se não o melhor, álbum de NX Zero. Além disso, seus singles contém clipes muito bem feitos e produzidos. Outro exemplo é o rapper Projota, que começou em 2008 e desde então criou um estilo próprio e único, deixando a indústria musical ainda mais completa.

Infelizmente não posso citar todos os artistas nacionais que admiro, muito menos aqueles que não conheço muito. Mas acredito que se você ligar a TV irá encontrar Anavitoria, Tiê, Sandy, entre vários outros que merecem sua atenção. Claramente citei apenas exemplos sobre a música pop nacional. O pop me atrai mais, e isso me dá mais conhecimento sobre o assunto, mas existem artistas extremamente talentosos em todos os ritmos nacionais, seja sertanejo, funk, axé ou qualquer outro. Obviamente, ninguém é obrigado a gostar ou continuar consumindo, mas nenhuma pessoa tem o direito de julgar aquilo que não conhece. Não custa parar para ouvir antes de julgar.

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A música pop nacional está em um nível muito alto. Os artistas se dedicam cada vez mais, e não para apenas seu público, mas para todos. Existem sim músicas fúteis no Brasil, assim como existem em outros países, mas essas faixas só fazem sucesso porque as canções boas não estão sendo consumidas. Para qualquer forma de entretenimento sobreviver é necessário o consumo. O passo mais importante é a simples ação de dar uma chance para admirar o trabalho dos artistas que estão aqui, no nosso país, querendo ir mais longe como cantores americanos conseguiram, e sim, eles podem e conseguirão, se tiverem um empurrãozinho do próprio Brasil para valorizar sua arte, que realmente não é igual a antiga, ou a estrangeira, mas é brasileira e só por isso vale a pena.

  • Vitor Gabriel

    Amei o texto ♥

  • Hoops

    Vou comentar este trecho:

    “Anitta participou da composição de todas as quinze músicas de seu último álbum, “Bang“. Atua constantemente nas produções de seus clipes – que em minha opinião são os melhores do Brasil. Possui shows com produções muito boas, e além disso dança incrivelmente bem. Anitta pode ser chamada de muitas coisas: cantora, dançarina, compositora e apresentadora, mas fútil é claramente uma palavra que não se aplica à ela.”

    Bons argumentos para justificar que a artista não seja fútil. Em tese, ser competente e produzir todas as etapas de um vídeo mostra conteúdo, de fato. Talvez ela não seja, então, fútil, mas, infelizmente, depois de todo esse esforço, de toda essa dedicação, o produto final do trabalho dela é bastante fútil. As músicas repetem uma fórmula que, no exterior, já está bem batida (nada de original, para ser sincero) e que valorizam o corpo, o materialismo, o egocentrismo, o domínio da mulher sobre o homem (devo acrescentar aqui que deveríamos pregar a igualdade de gêneros, não o feminismo ou o machismo, que são visões discriminatórias, que devem ser rechaçadas) e outros valores que, para mim, alimentam essa sociedade doente que nós temos, de pessoas que prezam o ter em detrimento do ser, que sempre se concentram em seu próprio umbigo, quando deveriam, o mais urgentemente possível, começar a pensar no que elas podem fazer para melhorar a vida em sociedade, que anda bem difícil para o brasileiro.
    A música da Anitta, em resumo, reforça todo o alto nível de futilidade em que está imerso o cidadão mediano. Ela, se for realmente inteligente, poderia começar a pensar em ser, também, original: por que não compor músicas que pregam virtudes e não a banalidade que sufoca a todos que têm mais de 2 neurônios?

    • Raissa Quivia

      Finalmente alguém razoável na internet!!!
      É difícil encontrar pessoas com educação e que não seguem ideias prontas (vide feminismo) e conseguem argumentar claramente (parabéns pelo texto).

      • Hoops

        Thank you.