O errado julgamento da saída de Camila Cabello de uma girlband ‘produto de gravadora’ para se tornar uma artista

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Um Reality Show musical é, em tese, criado para descobrir talentos e levar o vencedor ao estrelato com um valioso contrato assinado com uma gravadora. A teoria parece ser bem tentadora, mas se a prática for analisada tenho certeza de que muitos artistas iriam voltar correndo para seus covers gravados em quartos e postados no YouTube. Essa parte da indústria musical não é nem um pouco atraente, e é cercada por obrigações da parte do artista que vão além de álbuns lançados. Obviamente que a imagem é algo a ser prezado em músicos públicos, porém algumas gravadoras optam por vender a imagem do artista e não a sua arte, e é esse o ponto absolutamente errado porém o mais consumido hoje em dia.

A pergunta de agora deve ser como eu sei disso tudo, e na verdade é bem simples, é só observar as coisas que acontecem ao redor. Um certo grupo é prejudicado todos os dias por sua própria gravadora – que não envia os singles para o exterior -, outro grupo anuncia uma pausa na carreira (sendo que bandas normalmente não anunciam publicamente pausas, elas simplesmente param, descansam, e voltam quando estiverem preparadas), e outro grupo dá uma entrevista dizendo que eles assinaram contrato já sabendo que iriam abrir uma turnê mundial, porém para isso deveriam criar personalidades, interpretar personagens, para venderem suas imagens.

Pessoalmente, eu sou contra qualquer artista que se sujeita a assinar um contrato onde terá que mudar de posição, orientação, personalidade e imagem para consegui-lo. Um artista deveria ser artista pela arte e não por fotos, roupas e declarações públicas. Esse meu pensamento foi modificado quando uma pessoa que conheço me disse que às vezes, tais “artistas” aceitam isso apenas para começar uma carreira. Depois que ouvi esse comentário comecei a me perguntar outra coisa: “Mas por que eles não param e fazem o que realmente querem após a carreira ser começada?”. É por esse motivo que passei a admirar Camila Cabello.

Fifth Harmony era composta por cinco garotas que não compuseram ou produziram nenhuma música em seus dois álbuns de estúdio lançados até então. Ou seja, o que é vendido no grupo é a imagem, e não a arte, afinal não há nenhuma arte feita por ele. Vocais e performances são consequências de um trabalho bem feito no estúdio, portanto não entram nessa categoria. Ao observar a girlband, primeiro acreditei que elas estavam acomodadas com o que tinham: Uma carreira baseada no talento dos outros que rendeu uma turnê pela América e muitos fãs no mundo. Porém, após o lançamento de “Bad Things“, parceira solo de Camila Cabello com Machine Gun Kelly, notei que a situação é diferente, já que a faixa foi composta por Camila. Então o cenário muda: Camila passa a ser uma pessoa que quer participar, quer produzir e criar, porém não tem espaço para fazer isso em seu próprio grupo, o que provavelmente pode ser uma questão de desentendimento entre as cinco, ou algo relacionado à gravadora – que realmente não quer elas envolvidas. Se as outras integrantes do grupo fazem parte da mesma situação, então por que continuar em um grupo artístico onde você não é uma artista?

Infelizmente, a “sociedade dos fãs” prefere julgar a pessoa e não a situação. Criar uma opinião sem entender o cenário completo, os dois lados. Isso também acontece quando a pessoa vai virar fã de tal artista: A falta de investigação, de querer saber o que tal músico tem de especial para merecer o seu afeto. Falta a admiração da arte, e principalmente, falta o ato de consumir esse trabalho, e não a imagem.

Não estou aqui para dizer que virei a maior fã de Camila Cabello, muito pelo contrário. Pessoalmente, seus vocais não me agradam muito, porém ela não lançou nenhum trabalho solo, não posso julgá-la como artista, mas posso incentivá-la a se tornar uma. Tenho uma grande esperança que ela se torne uma grande cantora, compositora e produtora agora que terá a chance. E quanto ao restante da Fifth Harmony, espero que tenham a mesma coragem para sair da comodidade e realizarem o sonho de trabalharem com música, e finalmente passar a criar uma arte que possam ter propriedade para falar que é delas.

  • Mirela Santos

    Simplesmente, o melhor posicionamento que eu vi sobre esse assunto. Muito bom Anna! Abraços.