“3%”: A série distópica brasileira da Netflix que merece 100% de sua atenção

1
114

Eu provavelmente nunca fiquei com uma expectativa tão alta para assistir uma produção brasileira como fiquei com “3%“. A série é a primeira original da Netflix completamente feita e produzida no Brasil. Antes do lançamento, as prévias e o marketing que o serviço de streaming fez nas redes sociais, “gritando” virtualmente palavras de ordem contra “O Processo”, aumentaram ainda mais minha curiosidade quanto ao enredo, que parecia muito com “Jogos Vorazes” e “Divergente“.

Sou uma completa fã de distopias, ao contrário de muitos que as enxergam como previsíveis demais. O enredo de “3%” segue muito esse estilo, e é muito bom. Existe a “injustiça” aparente, “O Processo” que entra como solução (mas somente para os merecedores) e “A Causa” que é contra toda essa forma de seleção. A função do Processo é enviar apenas 3% dos moradores para o Maralto, um lugar onde todos vivem felizes, em harmonia, o dinheiro não importa e nenhuma discriminação existe. Porém, esse lugar para os privilegiados só existe por conta da pobreza e sofrimentos dos outros 97%, que não passaram no Processo: um modo de seleção criterioso que faz com que todos os jovens de 20 anos que queiram tentar a chance de uma vida melhor passem por provas de diversos tipos até provarem que são merecedores. Em meio a tudo isso, existe uma pequena revolução crescendo: “A Causa” pretende acabar com O Processo – que eles acreditam ser uma mentira e completamente injusto.

Resultado de imagem para 3% netflix poster

O lado interessante da série é a possibilidade de observar todos os pontos de vistas possíveis, com opiniões diversas sobre “O Processo”. A questão então para de ser quem está certo ou errado, e se torna quem consegue expressar seus ideais de melhor forma, fazendo com que o público faça parte da história e crie uma perspectiva própria sobre as situações.

A série definitivamente não pode ser julgada pelos primeiro episódios, e é exatamente por isso que ela possui apenas oito, ou seja, ela não é cansativa e nem estendida de modo algum. Arrisco dizer que a história é a que mais possui reviravoltas que já assisti, a cada momento o personagem que você acredita que conhece e sabe exatamente qual seu papel ali se revela completamente diferente. Isso foi possível pelos flashbacks criados na edição, que foram pontos muito positivos, onde ao longo dos episódios, os personagens que no início não possuíam mistério algum, se tornavam absolutamente misteriosos e em seguida o público, ao conhecer uma parte de seu passado, compreende seu verdadeiro papel. Porém, mesmo após entender o passado de cada personagem, o mistério continua, pois o telespectador aprende a se acostumar com as surpresas que podem (e não param de) aparecer.

Leia também: “3%”: a primeira série brasileira da Netflix que tem tudo para dar certo

As atuações me surpreenderam de uma forma muito positiva. O elenco principal atuou de uma forma que possibilitou uma criação completa dos personagens que foram muito bem construídos. João Miguel (Ezequiel) e Viviane Porto (Aline) apresentaram ao público um novo formato de civilização, como típicos participantes da sociedade do Maralto. A participação de Mel Fronckowiak (Júlia) foi rápida, e muito bem feita, porém não se resume a apenas um único episódio em que atua (sendo um dos meus favoritos). Ela está presente na série inteira mesmo sem aparecer, pois toda a trama de Ezequiel, o responsável pelo Processo, gira em torno dela (sua mulher), de sua história e de suas escolhas – que foram representadas de uma maneira muito realista por Mel. Bianca Comparato guiou a história como Michele maravilhosamente bem. Sua personagem é, em tese, a principal. Porém, é possível notar um grupo para esse único lugar, onde nenhuma atuação desaponta. Entre eles estão Rafael Lozano (Marco), Michel Gomes (Fernando), Vaneza Oliveira (Joana) e Rodolfo Valente (Rafael). Todos desse grupo conseguiram crescer de uma maneira incrível junto com o papel na medida que ele iria sendo exposto ao público. Muitas vezes, esses enriquecimentos dos personagens podem ser vistos como troca de personalidade, o que não é um fato. Acredito que os personagens da série criaram amadurecimento (ou não), e se mostraram como realmente são aos poucos. Preciso ressaltar a atuação de Rodolfo Valente, que conseguiu atuar propriamente dentro da atuação – fazendo com que Rafael se tornasse o meu personagem favorito no último episódio.

Resultado de imagem para 3% netflix poster

Sendo uma produção brasileira, infelizmente aquele famoso “roteiro decorado” e claramente não natural estava presente na maioria (não em todos) dos personagens e das cenas, tornando as falas ensaiadas e exageradas. É algo para ser melhorado, mas absolutamente não é exclusivo de “3%”. Algumas das atuações secundárias também não me agradaram, principalmente do conselho do Maralto – que não apareciam propriamente em cena, e mesmo assim enxerguei como algo muito forçado. Além disso, esse tão sonhado “lado de lá” não foi descrito perfeitamente, sendo impossível uma comparação entre a vida antiga dos personagens e a que eles tanto almejam, porém não vejo isso como um completo erro.

Acredito que é desnecessária a comparação além do tema com produções como “Jogos Vorazes”, que obviamente é algo absolutamente maior e com mais recursos para ser criado. Não é pelo fato de que todas as distopias agiram de maneira X até então que “3%” não pode seguir um pouco pela maneira Y. Aprecio a liberdade como a série foi criada, que mostra acima de tudo a realidade de “Três Por Cento” e não de “Divergente” ou qualquer outra história.

As qualidades superaram sim os defeitos, e a produção provou que pode dar uma grande e boa visibilidade ao Brasil, sendo a primeira série brasileira original da Netflix. É importante ressaltar que essa visibilidade pode, e precisa, começar com os próprios brasileiros, que devem comparar a produção apenas com ela mesma e não com roteiros adaptados e internacionais, para passarmos a consumir a cultura nacional de mente aberta e sem preconceitos. A série é completa, cheia de reviravoltas e com personagens muito bem construídos. Ela consegue prender o telespectador até o último segundo pela curiosidade provocada, e isso com certeza fará com que você dedique 100% de atenção aos aproximados 45 minutos de cada episódio.

  • Papo de Cinema

    Adoreeei!! s2